O coração de Tarcizio pulsava no ritmo do motor de popa de uma catraia. “Desde ontem, eu espero o barco, ansioso”, conta o menino de 13 anos, referindo-se ao transporte que o levaria de Assunção até São Francisco do Aiucá. As duas localidades ribeirinhas pertencem à mesma região do Amazonas; ao mesmo tempo, estão distantes entre si por uma viagem de cinco horas rio adentro rumo ao paraná do Aiucá, afluente do gigantesco rio Solimões. O motivo da expectativa e da jornada de Tarcizio é um só: o II Encontro de Jovens Líderes da Floresta.
Foto: João Cunha
Foi a segunda vez que o evento, realizado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), aconteceu em Uarini, município no interior do estado do Amazonas. Entre os dias 28 a 30 de abril, cerca de setenta adolescentes foram selecionados por suas comunidades de origem para representá-las no encontro, trocando experiências e identificando potências e soluções para problemas que são compartilhados, como as dificuldades de acesso à educação e saúde pública de qualidade.
Foto: João Cunha
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Mas o que é ser uma liderança? Essa pergunta esteve nas cabeças das garotas e garotos mesmo antes do evento começar. Durante o mês de abril, como preparação para o encontro, a FAS desenvolveu Oficinas de Liderança Jovem em 11 polos comunitários da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (RDSM), que representam 41 comunidades abrangidas pelo município de Uarini. O propósito central das atividades foi promover a reflexão e debate de temas de participação cidadã e liderança empática e democrática.
“As oficinas somam nesse trabalho que vem sendo feito com as lideranças juvenis, discutindo protagonismo e cidadania”, afirma Miguel Aguiar, assistente social e instrutor do projeto. “Com a mobilização na Reserva Mamirauá, foi possível conhecer a realidade geral, mas também as particularidades de cada comunidade, questões que foram trabalhadas agora no Encontro de Jovens Líderes da Floresta”.
Liderar é organizar o coletivo em torno do bem comum. A juventude que esteve presente na Comunidade Aiucá vivenciou essa lição a partir de referências atuantes na organização e fortalecimento comunitário na região. “É importante escutar a comunidade, conhecer os problemas do seu local e ir atrás das mudanças necessárias”, encorajou Raimundo “Xexéo” Rodrigues.
Atual presidente da Associação de Moradores e Usuários da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá – Antônio Martins (Amurmam), Xexéo conversou com o grupo sobre o papel das associações comunitárias e o poder da aliança entre povos da floresta, dos campos e dos rios da Amazônia, reforçando o valor de ser amazônida. “Sou ribeirinho com muito orgulho e levo esse orgulho para todos espaços que vou. Defendendo nossos modos de vida e nossos direitos”.
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Liderar é ter os pés firmes no chão da terra, conectados com as raízes, mas com os olhos voltados para o futuro. No II Encontro de Jovens Líderes da Floresta, os adolescentes interagiram com lideranças de outras comunidades, aprendendo com elas mais sobre a riqueza cultural dos povos tradicionais.
Maria Auxiliadora Santos é uma dessas lideranças. Moradora da Aldeia Assunção, ela incentiva programas locais de ensino e aprendizagem que se baseiam na língua do povo Kokama. A escola da aldeia atende crianças e adolescentes de Assunção e três comunidades vizinhas, desde o primário até o 9º ano. “Eu vim aqui no Encontro de Líderes, representando o meu povo Kokama, a minha aldeia e trazendo os jovens de lá para participar porque eu sei a importância dessa representatividade. É preciso mostrar e fortalecer as tradições, buscando novos conhecimentos, mas sem esquecer da nossa identidade”, fala.
Enquanto para alguns a formação de lideranças foi uma novidade completa, para outros a sensação foi de estar em casa. É o caso de Valdeane Santos. A jovem de apenas 16 anos já é uma “veterana” na participação em projetos de mobilização social desenvolvidos pela FAS na Comunidade Punã, onde mora.
Foto: João Cunha
Ela, que coleciona certificados em informática, educação e comunicação, entre outras áreas, deseja ir mais longe. “Toda vez que termino um curso, quero colocar os conhecimentos logo em prática, continuar aquilo que aprendi”, explica. Motivada por um curso técnico em empreendedorismo, Valdeane iniciou um negócio na porta da própria casa e investe na venda de açaí, bolo de macaxeira e farinha.
De todas essas especialidades, o jornalismo certamente despertou a maior paixão na adolescente. Desde que participou do projeto Repórteres da Floresta, em 2016, Valdeane adquiriu um objetivo maior: ser uma jornalista formada e seguir o ofício. “Eu admiro muito a profissão, nunca parei de fazer fotos, entrevistas e registrar o cotidiano da minha comunidade”, diz.
Participar do II Encontro dos Jovens da Floresta foi, na definição da repórter da floresta, “uma experiência surreal”. “Rever amigos e conhecer novas pessoas de outras comunidades da reserva e no município, conversar sobre o que a gente precisa e como podemos resolver, juntos, foi muito bom”, afirma.
Como resultado desse intercâmbio de vivências e articulação de olhares sobre as realidades ribeirinhas, foi criado o Manifesto da Juventude da Floresta. O documento, assinado pelos jovens participantes, nasceu de um diagnóstico participativo feito pelos próprios adolescentes sobre as prioridades de seus lugares de origem, como a conectividade de internet, segurança e estrutura adequada para as escolas.
Foto: João Cunha
O manifesto será encaminhado para a prefeitura de Uarini, secretarias municipais e associações comunitárias para a reivindicação de melhorias na qualidade de vida e a garantia de direitos das pessoas que moram nas comunidades ribeirinhas da região, dessas e de futuras gerações.
O Encontro de Líderes da Floresta é uma ação da FAS e conta com a parceria da Unilever. Essa edição do encontro teve o apoio da Secretaria do Meio Ambiente do Governo do Estado do Amazonas (Sema/AM), da prefeitura de Uarini, do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CDMCA) e da Amurmam.